"- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim ... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: "vou ser assim, porque a beleza está em ser assim". E nunca se é assim; é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente."
"Uma comoção passou-lhe na alma; murmurou, travando o braço do Ega:
-É curioso! Só vivi dous anos nessa casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor e rêlevo à vida - a paixão.
- Muitas outras coisas dão valor à vida ... Isso é uma velha idéia de romântico, meu Ega!
- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão ...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até o fim ...
- Creio que não - disse o Ega. - Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dento, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato, ou sensabor...
- Resumo: não vale a pena viver ...
- Depende inteiramente do estômago! - atalhou Ega."
"Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que, agora, o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear ... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tanquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo ... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades. (...) com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para cousa alguma ...
Ega, ao lado, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder ..."
E genialmente, após este discursso consolado e acomodado, Eça de Queiroz põe Carlos e Ega a correr pelas ruas, pois estão atrasados para um jantar que assumiram como compromisso, "sob a primeira claridade do luar que subia."
Ter lido os Maias, durante o primeiro e grande parte do segundo tomo, foi, para mim, uma interessante viagem sobre a exposição dos costumes e idéias lisboetas do século XIX. Foi ainda uma deliciosa distração sobre as discussões políticas e literárias destes personagens que viviam a uma época em que eram-se os dias, um após o outro, sem atropelamento. Uma época em que o tempo ainda não tinha tanta pressa. O livro foi também um espelho de identificação em seus momentos de paixão, especialmente entre Carlos e Maria Eduarda.
Mas foi sobretudo ao findar do segundo tomo, nos trechos das últimas páginas aqui transcritas, que a obra arrasou-me completamente. As imagens de Carlos da Maia voltando a um passado que em dois anos resumiu toda a sua existência é de uma beleza e uma tristeza tão emocionantes que apenas quem nunca foi feliz em algum momento da vida, ou é feliz e não tem medo de perder essa felicidade seria incapaz de compreender, de viver, de sentir. Enfim, estou aos prantos!
(... ah, românticos ...).



