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São Paulo, São Paulo, Brazil
28 anos, jornalista.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre "Os Maias", de Eça de Queiroz

A última conversa entre Carlos da Maia e João da Ega, dez anos após uma intensa convivência e importantes acontecimentos:

"- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim ... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: "vou ser assim, porque a beleza está em ser assim". E nunca se é assim; é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente."

"Uma comoção passou-lhe na alma; murmurou, travando o braço do Ega:
-É curioso! Só vivi dous anos nessa casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor e rêlevo à vida - a paixão.
- Muitas outras coisas dão valor à vida ... Isso é uma velha idéia de romântico, meu Ega!
- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão ...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até o fim ...
- Creio que não - disse o Ega. - Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dento, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato, ou sensabor...
- Resumo: não vale a pena viver ...
- Depende inteiramente do estômago! - atalhou Ega."

"Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que, agora, o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear ... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tanquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo ... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades. (...) com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para cousa alguma ...
Ega, ao lado, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder ..."

E genialmente, após este discursso consolado e acomodado, Eça de Queiroz põe Carlos e Ega a correr pelas ruas, pois estão atrasados para um jantar que assumiram como compromisso, "sob a primeira claridade do luar que subia."



Ter lido os Maias, durante o primeiro e grande parte do segundo tomo, foi, para mim, uma interessante viagem sobre a exposição dos costumes e idéias lisboetas do século XIX. Foi ainda uma deliciosa distração sobre as discussões políticas e literárias destes personagens que viviam a uma época em que eram-se os dias, um após o outro, sem atropelamento. Uma época em que o tempo ainda não tinha tanta pressa. O livro foi também um espelho de identificação em seus momentos de paixão, especialmente entre Carlos e Maria Eduarda.

Mas foi sobretudo ao findar do segundo tomo, nos trechos das últimas páginas aqui transcritas, que a obra arrasou-me completamente. As imagens de Carlos da Maia voltando a um passado que em dois anos resumiu toda a sua existência é de uma beleza e uma tristeza tão emocionantes que apenas quem nunca foi feliz em algum momento da vida, ou é feliz e não tem medo de perder essa felicidade seria incapaz de compreender, de viver, de sentir. Enfim, estou aos prantos!

(... ah, românticos ...).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Diário de Férias - a mídia e blá, blá, blá

O dueto entre Celso Zucatelli e o Espremedor de Laranjas!


Pela manhã, a voz de Cris Flores, apresentadora do Hoje em Dia, vem da TV já ligada na cozinha e me anuncia que Sheila Mello é a nova eliminada de A Fazenda 2. Entre espremer laranjas e me perguntar por que o insuportável do outro apresentador, Celso Zucatelli, não cala a boca, eu me lembro da coletânea do Dominguinhos que baixei da internet e prometo para mim mesma que assim que não tiver mais que estar na cozinha sufocada pelas frases de Zucatelli e pelo barulho do espremedor, serão as melodias de Dominguinhos que vão ressoar pela casa.

Assaltos à bancos em cidades no interior estão para Lampião assim como Hannibal Lecter





Depois do almoço, ainda ouvindo Elba Ramalho cantar De Volta pro Meu Aconchego, pego no sono. Acabo sonhando com um repórter da Globo cobrindo o caso Hannibal Lecter e comparando-o com Lampião. É isso que dá, eu ter assistido a primeira matéria do Fantástico de ontem, em que assaltos a bancos de pequenas cidades estavam sendo comparados com os movimentos do Cangaço. Quando ouço tamanhas bobagens costumo mesmo ter pesadelo com elas. Pesou no sonho também o fato de eu ter ficado assistindo Silêncio dos Inocentes até as 3 da manhã.

"A Vida de David Gale" e a Filosofia de Lacan  (agora é sério)

Melhor seria ter sonhado com Kevin Sapacey em A Vida de David Gale, que assisti na tarde de ontem. Especialmente em uma das cenas iniciais do filme quando ele está lecionando sobre Lacan e diz que:




“As fantasias tem de ser irreais, porque no momento, segundo em que consegue o que se quer já não o pode querer mais. Para poder continuar a existir o desejo tem de ter os objetos eternamente ausentes. Vocês não querem algo, querem a fantasia desse algo. Então, o desejo apóia fantasias desvairadas. Foi essa a idéia de Pascal ao dizer que somos realmente felizes quando sonhamos acordados com a felicidade futura. Daí dizer: o melhor da festa é esperar por ela, ou, cuidado com seus desejos. Não pelo fato de conseguir o que quer, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir. Então, a lição de Lacan é: viver de desejos nunca o fará feliz. O verdadeiro significado de ser humano é a luta por viver por idéias e ideais. E não medir a vida pelo que obtiveram em termos de desejos, mas pelos momentos de integridade, compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício. Porque no final, a única forma de medir o significado de nossas vidas é valorizando a vida dos outros”.


E assim seguimos com as férias ...