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São Paulo, São Paulo, Brazil
28 anos, jornalista.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ter ou não ter, eis a questão


O diploma universitário do jornalista não é mais pré-requisito essencial para quem quer exercer a profissão. A decisão foi tomada pelo Superior Tribunal Federal no último dia 17 de junho.
Sem mais delongas com relação à desculpa esfarrapada do STJ para a derrubada da obrigatoriedade do diploma (alegação: a obrigatoriedade do diploma jornalístico vem de uma lei autoritária, resquício do Regime Militar), ou ainda da desvalorização que ela causa aos diplomados e estudantes da profissão, uma coisa é certa: o fato já começa a gerar uma maior discussão sobre os rumos do trabalho produzido pelo profissional da notícia.
Encaro este formilhamento de opiniões como algo positivo.
Então, que pelo menos a medida desperte a nossa classe para o incômodo, o não conformismo. Que uma nova perspectiva de jornalismo comece a ser formulada por aqueles que admiram e respeitam esta profissão, por aqueles que têm paixão, pois o jornalismo que hoje está nas páginas e nas telas não serve. Não serve a mim, não serve à sociedade, não serve nem mesmo aos próprios jornalistas que trabalham mal e são mal remunerados.

Este jornalismo que temos hoje, não nos serve mais.

A pauta rejeitada que virou um Best Seller

A rotina angustiante de um “repórter sem nome e sem futuro” é exposta em “O Beijo da Morte” que tenta desvendar os bastidores da Ditadura Militar na América Latina

Uma verdade duvidosa. Esta pode ser a primeira e mais simples interpretação da obra de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, intitulada O Beijo da Morte.
Lançado em 2003, o livro traz ao longo de suas 283 páginas, a trajetória de um jornalista que dedica a sua carreira a uma pauta que nunca foi concretizada: as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda fariam parte de um plano da Operação Condor para eliminar estes três líderes políticos brasileiros que faziam oposição ao então regime militar. Ou seja, supõe-se que eles foram assassinados. A Operação Condor é uma aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul criada com o objetivo de coordenar a repressão a opositores dessas ditaduras. No caso do Brasil, estes três líderes representavam uma ameaça, pois compunham a “Frente Ampla”, movimento de oposição ao regime vigente.
O enredo do livro é exposto basicamente através do diário de um repórter fictício. Fica mais fácil então entender os porquês desta obra quando observamos que, ambos os autores são jornalistas e também historiadores. Desta forma, o livro é uma excelente reportagem, já que, apesar de seu protagonista nunca ter existido na realidade, todos os fatos citados fazem parte de acervo documental, o que ajuda a crer que tais circunstâncias podem ser dignas de credibilidade. Eis que temos então um romance-reportagem.
A quem lê, o livro é tão inconclusivo quanto os fatos. O repórter sem nome é introduzido sem nenhum aviso prévio. De uma hora para outra o leitor vê-se adentrando na intimidade de um total desconhecido. A forma como as informações são dispostas e a ordem cronológica são nada mais e nada menos que a tentativa do personagem de se convencer sobre suas próprias teorias.
É nesta instabilidade que se encontra a genialidade da obra de Cony e Ana Lee. Apesar de escrita através de um repórter fictício, a sensação final é de que a obra se resume em uma frase, citada mais de uma vez no texto: “no caso das três mortes, os indícios são maiores do que as provas”.
Apesar de um tanto quanto repetitivo na transmissão das informações, talvez até mesmo para ilustrar a idéia de obsessão que o repórter tinha sobre o assunto, “O Beijo da Morte” é uma excelente leitura aos fãs do estilo direto de Cony e também aos que viveram os fatos da época, assim como para aqueles de menos idade, mas que através das páginas do livro terão a chance de vivenciá-los.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

“Para ser apaixonado por arte não preciso ser um artista”



No alto de seus 28 anos, o crítico Fabiano Ormaneze conta qual é a sua
relação com o pensar e o escrever artístico em detrimento do fazê-lo.


Crítico de arte desde os 23, Fabiano Ormaneze, jornalista e professor, vive da arte, mas não é um artista e conta qual é a sua posição entre ser um estudioso e discorrer sobre atividades as quais não pratica.

Porque escrever especialmente sobre arte?
A arte sempre me atraiu, desde as aulas de Educação Artística do colégio. Mas sempre gostei de saber sobre a vida dos pintores, dos movimentos artísticos. O gosto pela arte me é inerente e então escrever sobre a arte é uma forma que tenho de aproximar-me dela.

Qual das vertentes da arte é a que mais lhe atrai?
Na verdade a minha paixão sempre foi a literatura. Então pensar e escrever a arte no jornalismo funcionam para mim como uma extensão a esta minha paixão, inclusive para as outras tantas formas de arte.

Você já tentou ser um artista? Quando?
Não diria que tentei ser artista, mas que já estive mais ligado ao fazer artístico. Durante minha adolescência, fiz teatro por aproximadamente quatro anos. Além disso, já pintei umas telas. Nunca tentei escrever uma ficção, me realizo muito mais pensando a arte...

Escrever sobre arte pode ser um tipo de arte?
Não. Escrever sobre arte é apenas refletir sobre arte, estudá-la, compreendê-la melhor. Sou contra esse desgaste que as pessoas promovem no conceito de arte... Tipo: "crítica é a arte de escrever sobre as manifestações dos artistas"... Isso não é arte. Não considero que escrever sobre arte seja fazê-la, são coisas diferentes.

Em suas aulas sobre crítica de arte, você já disse que a crítica permite ao autor a liberdade de criar "novas metáforas", isso te realiza?
Na verdade, o jornalismo literário utiliza algumas técnicas da literatura na produção do texto. E literatura é arte. Essa preocupação estética do jornalismo literário faz com que ele tenha um pouco de arte. Sou feliz com o que faço.

Estar tão próximo à arte, mas não ser o “artista no palco”, alguma vez lhe frustrou?
Não, de forma alguma.

O que diferencia uma pessoa simplesmente apaixonada pela arte, como você, de um artista?
O artista é um persistente, está em constante busca de um estilo, de uma técnica, de reconhecimento. Eu diria que o jornalista que se especializa nesta área também tem todas essas características, com uma diferença: em vez de levar para a arte sua percepção de mundo, como faz o artista, o crítico leva para os jornais sua percepção de arte.