A rotina angustiante de um “repórter sem nome e sem futuro” é exposta em “O Beijo da Morte” que tenta desvendar os bastidores da Ditadura Militar na América Latina
Uma verdade duvidosa. Esta pode ser a primeira e mais simples interpretação da obra de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, intitulada O Beijo da Morte.
Lançado em 2003, o livro traz ao longo de suas 283 páginas, a trajetória de um jornalista que dedica a sua carreira a uma pauta que nunca foi concretizada: as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda fariam parte de um plano da Operação Condor para eliminar estes três líderes políticos brasileiros que faziam oposição ao então regime militar. Ou seja, supõe-se que eles foram assassinados. A Operação Condor é uma aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul criada com o objetivo de coordenar a repressão a opositores dessas ditaduras. No caso do Brasil, estes três líderes representavam uma ameaça, pois compunham a “Frente Ampla”, movimento de oposição ao regime vigente.
O enredo do livro é exposto basicamente através do diário de um repórter fictício. Fica mais fácil então entender os porquês desta obra quando observamos que, ambos os autores são jornalistas e também historiadores. Desta forma, o livro é uma excelente reportagem, já que, apesar de seu protagonista nunca ter existido na realidade, todos os fatos citados fazem parte de acervo documental, o que ajuda a crer que tais circunstâncias podem ser dignas de credibilidade. Eis que temos então um romance-reportagem.
A quem lê, o livro é tão inconclusivo quanto os fatos. O repórter sem nome é introduzido sem nenhum aviso prévio. De uma hora para outra o leitor vê-se adentrando na intimidade de um total desconhecido. A forma como as informações são dispostas e a ordem cronológica são nada mais e nada menos que a tentativa do personagem de se convencer sobre suas próprias teorias.
É nesta instabilidade que se encontra a genialidade da obra de Cony e Ana Lee. Apesar de escrita através de um repórter fictício, a sensação final é de que a obra se resume em uma frase, citada mais de uma vez no texto: “no caso das três mortes, os indícios são maiores do que as provas”.
Apesar de um tanto quanto repetitivo na transmissão das informações, talvez até mesmo para ilustrar a idéia de obsessão que o repórter tinha sobre o assunto, “O Beijo da Morte” é uma excelente leitura aos fãs do estilo direto de Cony e também aos que viveram os fatos da época, assim como para aqueles de menos idade, mas que através das páginas do livro terão a chance de vivenciá-los.
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