Ela nasceu na década de 70, não sabe-se bem o ano. Veio ao mundo provavelmente pelas mãos de uma parteira em uma cidade alagoana que não se sabe o nome, próxima de Maceió.
Tinha mais seis irmãos, uma mãe submissa e um pai infiel, e a ela foi dado o nome de Diva.
d.i.v.a. do italiano diva, representa a figura de uma mulher formosa, uma Deusa.
Foi assim que começou a me contar a história de sua vida, a Dona Diva, a faxineira que eu e minha colega de apartamento chamamos esporadicamente lá em casa para nos ajudar a atenuar os efeitos devastadores da falta de organização de duas jovens do século XXI que não podem sequer ouvir falar na palavra faxina.
Dona Diva saiu de Alagoas ainda com 19 anos, logo após ter cursado o ensino médio e feito magistério. Como ela mesma fez questão de enfatizar, veio para cá totalmente sozinha, morar de favor com uma parenta, com o mesmo sonho de tantos nordestinos de ganhar dinheiro em São Paulo.
Não se passou meio ano até que Diva conhecesse um homem daqui, se apaixonasse e fosse morar com ele, ter sua própria vida e sua própria casa.
A vida era muito boa, o homem-sem-nome era muito trabalhador. Juntos, Diva e seu homem tinham uma micro-empresa onde vendiam alguma coisa de material de construção. Ela fazia jus ao nome: era uma mulher guerreira que saíra de sua terra natal para fazer a vida e agora tinha um trabalho, uma casa, cumpria arduamente seu papel de mulher evangélica, cuidava de um marido, um filho e tinha outro bebê na barriga.
Com dez anos de casada, Diva e o marido estavam próximos de realizar um ato de caridade. Dariam abrigo a uma prima de seu homem, que ela não conhecia pessoalmente, mas que havia se divorciado e já não tinha onde morar. Mas essa prima não vinha nunca e tudo o que existia era uma negociação sem fim feita por telefone. O estranho era que, quando o telefone tocava e Diva atendia, a pessoa do outro lado da linha sempre desligava. Mas quando era o marido de nossa heroína quem respondia com um "alô", bingo! Era mais uma vez a prima discutindo a sua lendária chegada ...
E enquanto ela não chegava, foi o segundo filho quem chegou. Diva entrou em trabalho de parto. Que alegria! O marido colocou-a no carro e a levava para o hospital. No meio do caminho, em um ótimo momento, enquanto Diva gemia com as contrações, este homem-sem-nome, no alto de seu tato masculino avisou sua amada: "eu preciso te dizer uma coisa, depois que essa criança nascer, vou embora".
Dito e feito. Mãe em quarentena, com um recém-nacido no colo, Diva era uma mulher com dois filhos, abandonada pelo marido, sem nada e sem poder trabalhar. Sim, o cara tinha se mandado com a tal da prima.
Diva sobreviveu de doações. Me contou que seus vizinhos davam restos de comida e a igreja ajudava. Ah, quem disse que é fácil a vida de uma Diva? A desta que tirava cabelos do ralo do meu banheiro enquanto me contava esta história, bem longe do glamour que seu nome envoca, não foi das mais suaves. Ela deu uma pausa em seu trabalho e seus olhos se encheram de emoção, confessou que há anos não contava aquela história para ninguém e ouvir tudo isso de sua própria boca era muito difícil para ela. Diva teve depressão pós-parto, me contou que levou anos para se recuperar deste golpe. Por muitos tempo culpou-se, ora veja só, pelo casamento fracassado... Meu Deus, e eu pensava o quanto o sociedade cristã é capaz de imputar a culpa nas mulheres desde Eva e a maça!
Mas tinha dois filhos para alimentar, foi então que começou (e não mais parou) com as faxinas. Hoje, quase quinze anos depois, ela limpa casas e apartamentos para sobreviver. Paralelamente fez vários cursos e complementou o seu magistério. Atualmente, quando não está faxinando, dá aulas de reforço para adolescentes e adultos com dificuldades de aprendizado. É articulada, informada, sabe argumentar. Me disse que o seu drama do momento é o seu filho mais velho, de 17 anos, músico, ganha a vida tocando piano em bandas, mas que anda muito revoltado. Além disso, disse ela, ele está querendo namorar uma das meninas da igreja, mas ela avisa que na sua religião não se pode nem segurar na mão antes do casamento. Que o diga dar um beijo! Eu dei um conselho gratuito a Diva, disse a ela para procurar ser mais flexível com o menino, os tempos são outros! Ela me respondeu com outro conselho, disse para eu pensar bem antes de casar, que esse negócio de casamento é muito complicado...
No fim do dia minha casa está limpa e cheirosa, o meu ralo do banheiro desentupido, aquele monte de fios loiros caídos já está no lixo e eu me despeço mais uma vez de Diva com a certeza de que ela é mesmo uma diva para mim!

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